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Vermelho

Vermelho

Eu mancho teu lençol de  vinho
Tinto
Derramado com proposito
Mancho teu pescoço de vermelho
 meu batom
Assim evito  manchar de sangue
Vermelho vivo

Em tuas mãos, minha alma
Se esvaindo
Eu te mancho
E meu sangue a escorrer
E o vinho a pingar
Manchando teu lençol

Um comentário sobre: Lolitas!



Ao compararem as duas adaptações do famoso livro: "Lolita", uma de 1962 e outra de 1997, é comum a preferência pela segunda opção. O motivo? A "sensualidade" explícita da versão mais recente e o puritanismo da personagem de 1962.
Lolita é uma criança, seu puritanismo, como dizem os críticos homens, era para ser algo evidente e lógico  não criticável.

Ao contrário da maioria, o filme de 1962 me agrada mais justamente pela inocência da personagem, passando a essência do que é a história do livro, uma criança em situação vulnerável a mercê de um padrasto obcecado, que vê sensualidade até mesmo em uma brincadeira de bambolê. Ao contrário do segundo filme que tenta culpabilizar a vitima, apesar de todas as atitudes de Lolita no filme de 97 serem infantis - como as respostas mal educadas à mãe - o filme mostra Lolita como uma mulher que seduz, provoca e ataca, e faz tudo isso para manipular e conseguir o que quer e o pobrezinho do padrasto não é capaz de resistir, afinal ele é um homem. 

Lolita, vale sempre lembrar, não é uma história de amor mas sim de um homem obcecado por uma menina de 12 anos, tentando nos convencer de que é apenas um homem apaixonado. Pois, ora, o narrador é o próprio Humbert Humbert,  a história é contada de seu ponto de vista e o assediador sempre verá a vítima como uma sedutora. Lolita não é a única prejudicada, sua mãe também se torna uma vítima nas mãos de Humbert que aceita se casar com a mulher com o intuito de ficar perto da filha (você deve ter visto algo parecido por aí, não? E como em Lolita a filha é intitulada como "vagabunda" enquanto muitos se rendem ao charme do molestador). Uma criança, mesmo que em sua cabeça esteja apaixonada ainda assim é uma criança. 



Conto - Em nome de Deus

Em nome de Deus
Chocados ficamos ao saber do que são capazes as pessoas por ambição. É o caso de nossos pequenos Mark e John, o primeiro com dezenove anos e o segundo com dezesseis. Ambos descendentes de uma longa geração que vivera na pequena cidade dos EUA. Suas famílias eram amigas de longa data, não fora diferente com os garotos que não se desgrudavam um minuto, até surgiram boatos, mas nada foi a frente.
Mark era um garoto muito ambicioso, sonhava com riquezas, poder, sucesso, mas isso daria muito trabalho pelo jeito convencional, trabalho do qual queria ser poupado. John, garoto magrelo e de cabelos finos seguia como fiel escudeiro de seu amigo onde fosse, quando Mark escolheu um jeito para conseguir o que queria, arrastou o garoto junto.
Caverna sagrada, era como chamavam os meninos o lugar de seus rituais, não era bem uma caverna, mais parecia um buraco entre pedras no meio da floresta, mas não acharam nome melhor, foi esse mesmo:
- Trouxe tudo? – indagou Mark.
- Claro, está tudo aqui. – John aponta para a sacola.
- Ótimo, acenda as velas.
John acata o pedido acendendo as velas e as posicionando no devido lugar enquanto Mark preparava o altar, na sacola pequenos barulhos podiam ser ouvidos, quando tudo estava pronto John por um momento hesita:
- Mark, eu não sei se isso é certo.
- Deixa de ser medroso John, é só um cachorrinho. Vamos me dê ele. E o punhal.
O garoto então, abre a sacola, retirando o pequeno filhote segurando em seus braços, entrega-o a Mark junto com o punhal que compraram em uma lojinha na beira da estrada. Os dois juntos começam a declamar palavras de uma “oração”, dizendo renunciar a Deus e se entregar a Lúcifer. E então em um único gesto, Mark golpeia o filhote no peito, deixando seu sangue escorrer por todo o altar que havia preparado.
- Uma nova vida – declamava Mark.
John apenas sorria com as promessas de seu amigo, estava claro como cristal, que ele seria um servo abdicado, pronto pra obedecer a seu mestre. Quando os garotos deixam a caverna, sentem uma felicidade inimaginável, sem perceber que olhos os observavam. Olhos curiosos para descobrir o que havia de errado com dois garotos aparentemente normais.
Os passos curiosos, avançavam para a caverna lentamente, na tranquilidade que encontraria o que procurava, e não enganava-se.
Na pequena caverna de pouco mais de três metros e meio, havia um altar com velas já apagadas, no chão desenhos e escritas, ambos estranhos e difíceis de interpretar, mas o que mais espantou a aqueles olhos curiosos era o sangue formando um desenho macabro. Com os olhos saltados afasta-se dali, mas tão logo passado seu espanto, brotava-lhe um sorriso no canto da boca e um pensamento infame na cabeça. Seria a desculpa perfeita, para o peso de sua consciência.
Era dezembro, e o inverno aconchegava o coração da pequena população de Romaria¹, como de costume no domingo, quase toda a população, muito ligada a religião, frequentava a única igreja da região. Naquele domingo Mark e John pareciam um pouco mais incomodados do que o normal. Odiavam estar naquele lugar, principalmente Mark, que não conseguia compreender todas aquelas pessoas falando besteira. No final da missa todos se encontravam na porta da Igreja para colocar os assuntos em dia.  Rutty Miller, mãe de Mark, era uma senhora muito religiosa, sempre procurava Padre Joseph para bajular o jovem reverendo, que para ela era mais que um padre:
- Padre Joseph, um belo sermão hoje, como de costume. – exclamou Rutty.
- Fico muito agradecido, Rutty, como sempre cheia de simpatia – respondeu o reverendo – preparada para o novo ano?
- Não muito, 1967, dizem que ano ímpar traz azar.
- Para Deus, não existe azar. Senhora Rutty, me permite um comentário inconveniente? – pergunta.
- Claro padre.
- Noto seu filho, Mark, um tanto desconfortável. Algum problema com ele? – indaga curioso.
-  Creio que não padre, sabe como são os jovens, ainda mais nesse modernismo doido, Mark como todo jovem queria estar em outro lugar, deveras.
- Por suposto. Mas nunca é demais investigar o bem estar de meu rebanho, não é mesmo?
- Corretíssimo, se me permite tenho que preparar o almoço, hoje a família de John Smith almoça conosco.
- Um ótimo garoto, John, não acha?
- Excelente. Bom, até mais. A benção.
- Até mais ver dona Ruty. Que o senhor a acompanhe.
- Amém.
As comemorações de passagem de ano das famílias Miller e Smith, fora a mesma por muitos anos, uma exígua reunião que começava perto das onze e acabava antes da uma. Apenas um banquete, conversação e alguma risada contida, nada de uma festança exagerada. Não fora diferente para esperar 1967. Como todo ano a família Smith volta para casa a uma da manhã, e na casa dos Miller, Ruty coloca os filhos para dormir e em seguida se deita com o marido, com quem apenas mantem a conveniência. Foi uma comemoração normal, mas no primeiro despontar do sol naquele ano, é que houve a mudança naquela acomodada cidade.
Todas as casas abrangiam a região da pequena igreja foram invadidas por um grito estridente e longo, de uma criança ao que tudo indicava. Sem nenhuma hesitação, a vizinhança inteira pôs-se para fora, dando falta apenas de Padre Joseph. O pequeno garoto, parado em frente à Igreja, continuava com seus gritos agudos e sua bola na mão. Quando a população se aproximou, ficaram aterrorizados com a imagem que viram.
Uma gigante e bem feita cruz de madeira fincada em um buraco feito no chão, a pessoa que fez isso deve ter tido muito trabalho. Mas o espanto não era causado pela cruz. Mas sim pelo corpo amarrado nela. Uma moça, muito jovem, sem roupa nenhuma, em seu peito até a barriga uma costura que lembrava uma cruz. O que mais horrorizava aquela gente, eram os órgãos da garota enfileirados no chão, do menor para o maior:
- O que está se passando? – John aproxima-se de Mark.
- Parece que tem uma moça morta na frente da igreja. –responde Mark.
John e sua família aproximam-se da cruz e deparam-se com a jovem sem vida, Judy, mãe de John, cai de joelhos logo botando pra fora todo o sofrimento, sendo amparada por sua velha e boa amiga Ruty.
- Minha irmã. – John diz confuso.
Então repara algo que ninguém ainda tinha visto. Um bilhete escrito com sangue, provavelmente da vítima: “Primeira cobrança.”
O temor em seu rosto podia ser observado de longe, era normal, afinal sua irmã estava morta, mas não para Mark:
- O que houve John? – pergunta.
- Olha esse bilhete. – o garoto sussurra.
Mark recolhe do chão o pequeno papel do chão e rapidamente passa os olhos por cima, então se afasta sendo seguido por seu fiel amigo:
- Penso que isso pode ter sido pelo que fizemos.
- Deixe de ser tolo, é claro que é uma coincidência. Isso é obra de algum sádico desses que gostam de menininhas.
John abaixa os olhos tristes, sem encontrar nenhuma resposta.
- Olha John, não pense mais nisso, tudo bem? Fique com sua mãe, que ela precisa de você agora.
O garoto então faz um sinal com a cabeça concordando com o amigo, e volta para perto da sua mãe, tentando a abraçar, mas a mulher, de tão abalada, apenas grita e não quer o consolo de ninguém.
Fora um belo cortejo, pessoas cheias de emoção. Os dias que o sucederam passaram normais. John não conseguiu acatar as ordens de seu amigo e não tirava as palavras do bilhete do pensamento. E não tardou para o novo ataque acontecer.
A cena se repetia como um déjá vu, o mesmo cenário, os mesmos curiosos só a vítima mudara, Seu Harry, devoto marido de Ruty, excelentíssimo pai de Mark, pendurado na nova cruz defronte à igreja. Era um tanto gordo, o assassino deveras seria forte. Dona Ruty, pobrezinha, só podia abaixar a cabeça e chorar. Tinha três filhos pra criar, como faria isso sozinha?


John ao se aproximar do local, procurando alguma pista, encontra um novo bilhete que novamente tinha passado despercebido. “Segunda alma, paga.” Seus olhos arregalados, denunciavam o pavor que a nova mensagem lhe causara. Com as pupilas dilatadas e o bilhete em suas mãos vai ao encontro de seu amigo:
- Mark, outro bilhete. – John diz entregando-lhe o bilhete.
- Deixe de bobagem John, isso é só algum doido solto por aí.
- Mas, Mark ...
- Pare de me perturbar com suas fantasias. – Mark responde virando as costas.
John resolve então concordar com o amigo, e põe na cabeça que tudo não passava de uma coincidência, deveras era um louco que nem sabia o que estava dizendo direito.
As investigações já haviam começado e tudo apontava para Joseph como culpado, assim pensava o investigador:
- Padre, podemos falar uns minutos? – indaga entrando no galpão.
- Claro meu filho. Sobre o que se trata?
- Sobre os assassinatos recentemente ocorridos.
- Oh, em que posso ser útil?
- Bom, eles foram em frente a sua Igreja, não viu nada suspeito?
- Não senhor. Acredito que a morte tenha sido em outro lugar, já que se fosse ali, qualquer um teria escutado.
- O Senhor faz móveis de madeira? – pergunta avistando-as no local.
- Não para comércio, dou aulas de marcenaria aos garotos da cidade.
- Bom, vou deixa-lo trabalhar, se souber de algo, me avise.
O investigador saiu de lá com uma única certeza, Padre Joseph era o assassino, mas uma dúvida ainda pairava sobre ele, por quê?
O que o investigador e nem qualquer outra pessoa, que não fosse o próprio assassino, podia esperar, era que na manhã seguinte, a cidade amanheceria sobre a sombra de outra morte. A vítima desta vez, era o homem que conhecia tão bem o lugar onde os corpos eram expostos e até então o principal suspeito, Padre Joseph
John logo saiu a procurar o que estaria escrito no último bilhete, e quando o encontrou, novamente foi mostra-lo a seu amigo, mas dessa vez muito mais surpreso. Mark que sempre achou que tudo não passava de bobagem do fiel companheiro, desta vez não pode evitar o medo. “Todas as almas serão cobradas, Mark”
Mark não disse nada, apenas começou a caminhar em direção a sua casa, seguido do amigo. Sentaram-se no sofá ainda temerosos:
- Mas por que o padre? – perguntou Mark.
- Talvez ele tenha descoberto o real assassino. Ou é um daqueles que querem provar que a polícia está errada, já que desconfiavam de Joseph.
- Tem razão. Agora devemos ficar precavidos. Vá para sua casa e fique atento a tudo que se passa.
John concordou com a cabeça e virou-se em direção a porta, enquanto Mark deitava-se no sofá, respirando ofegante, ficou assim por alguns minutos, até perder os sentidos. Acordou sentindo uma dor enorme em sua cabeça, olhou a sua volta e não estava em casa, forçou a vista até conseguir se dar conta, estava na caverna, só queria dizer uma coisa: ele era o próximo.
Tentou investigar, mas tudo estava escuro, apenas conseguia ver as chamas de uma vela acesa dentro da caverna, mas não havia qualquer sinal de que estava acompanhado, então arrastou-se pelo chão, fazendo o máximo para não emitir qualquer som e quando se viu fora do lugar de abate pôs-se de pé e correu até chegar em frente à igreja encontrando sua beata mãe ao pé da enorme cruz de madeira:
- Mãe, o que faz aí? – perguntou surpreso.
Ruty, se aproximou do garoto, afagando seus cabelos e o envolvendo com o braço esquerdo, com o direito retirou o punhal que estava escondido no cós da saia, fazendo o garoto arregalar os olhos e tentar se soltar, mas a velha era gorda e forte e o prendeu com apenas um braço:
- Me desculpe meu filho, mas é necessário de que nenhum demônio permaneça sobre a terra. – disse em seguida rasgando o peito do garoto que começara a gritar, mas caiu desfalecido no chão.
Em sua casa, John ao ouvir um barulho, acorda assustado, coloca vagarosamente os pés no chão frio de madeira, e começa a andar em direção ao quarto dos pais, verificando se tudo estava bem:
- Mãe. – chama
- Que foi John. – responde com a voz de quem estava chorando.
- Está tudo bem? Parece que ouvi um grito.
- Não ouvi nada. – respondeu cobrindo a cabeça.
Não satisfeito com a resposta o menino magrelo se dirige até a porta colocando nos pés o chinelo que ali se encontrava, caminhou até a rua inconscientemente se dirigindo até a igreja, tamanho foi o susto ao encontrar o amigo caído no chão banhado em sangre, abriu um berreiro que desta vez acordou a vizinhança que logo correu pra rua a ver de que se tratava. Encontraram o jovem Mark em posição diferente dos outros corpos, sua barriga jorrava sangue, mas nenhum órgão havia sido retirado, e ele estava ao pé da cruz em vez de amarrada nela. A cidade fitava-o com horror até ter sua atenção desviada para cima de uma árvore na qual ouviram a velha Ruty dizer a plenos pulmões:
- Foi tudo por você, Senhor!
Depois meteu o punhal no próprio peito se levando despencar da árvore e cair agonizando no chão, fazendo toda aquela gente estremece, uns levando a mão na boca, outros se enjoando.

Não havia dúvida de que Ruty teria sido culpada pelas mortes ocorridas e tão pouco que havia feito isso por uma mente fanática e já sem a lucidez necessária. Alguns lamentavam o fato da senhora ter tomado um rumo tão triste, outros diziam que era uma louca que só merecia mesmo a morte. Mas sem dúvida a cidade jamais esqueceu o fato, principalmente John que depois do acontecido raramente tornou a botar os pés para fora de casa a não ser nas visitas fiéis a igreja.

Poesia - Vinicius de Moraes

Elegia Desesperada

O Desespero da Piedade


Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.


Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina


Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.


Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.


Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.


Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...


Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!


Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.


Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.


Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.


E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!


Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!


Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.


Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.


Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.


Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.


Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.


Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.


Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.


Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.


Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.


Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.


Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!

Poesia - Sylvia Plath

Lady Lazarus
Tentei outra vez.
A cada dez anos
Eu tramo tudo
Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilha como um abajur nazista,
Meu pé direito
Um peso de papel
Face sem feições, fino
Linho judeu.
Livre-me dos panos
Oh, meu inimigo.
Eu te aterrorizo?
O nariz, as covas dos olhos, os dentes postiços?
O hálito azedo
Some num só dia.
Logo logo a carne,
Que a caverna carcomeu, vai voltar
Pra casa, em mim.
Sou uma mulher que sorri.
Não passei dos trinta.
E como um gato tenho nove vidas.
Esta é a Terceira.
Que besteira
Se aniquilar a cada década.
Milhões de filamentos!
A platéia comendo amendoins
Se aglomera para ver
Desenfaixaram minhas mãos e meus pés
O grande strip-tease.
Senhoras e senhores,
Eis minhas mãos,
Meus joelhos.
Posso ser só pele e osso,
Mas sou a mesma, idêntica mulher.
Na primeira vez tinha dez anos.
Foi acidente.
Na segunda tentei
Acabar com tudo e nunca mais voltar.
E rolei, fechada
Como uma concha do mar.
Tiveram de chamar e chamar
E arrancar os vermes de mim como pérolas grudentas.
Morrer
É uma arte, como tudo o mais.
Nisso sou excepcional.
Faço isso parecer infernal.
Faço isso parecer real.
Digamos que eu tenha vocação.
É fácil demais fazer isso na prisão.
É fácil demais fazer isso e ficar num canto.
É teatral
Voltar em pleno dia
Ao mesmo local, à mesma cara, ao mesmo grito
Brutal e aflito:
"Milagre!".
Que me deixa mal
Há um preço
Para olhar minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir meu coração
Ele bate forte.
E há um preço, um preço muito alto
Para cada palavra ou um toque
Ou uma gota de sangue
Ou um trapo ou uma mecha de cabelo.
E então, Herr Doktor.
E então, Herr Inimigo.
Sou sua opus
Seu tesouro,
Seu bebê de ouro puro
Que se derrete num grito.
Ardo e me viro.
Não pense que subestimei sua imensa consideração.
Cinzas, cinzas
Você remexe e atiça.
Carne, ossos, não há nada ali
Barra de sabão,
Anel de noivado,
Prótese de ouro.
Herr Deus, Herr Lúcifer,
Cuidado
Cuidado.
Renascida das cinzas
Subo com meus cabelos ruivos
E como homens como ar.

O morro dos ventos uivantes - Último livro que li

Titulo: O morro dos ventos uivantes - Wuthering Heights
Autora: Emily Brontë
Editora: Landmark
Páginas: 304
Edição bilíngue.

Sempre fico receosa ao falar de clássicos, principalmente aqueles de que gosto. Perguntas como: será que farei jus a obra? não param de me rondar. Porém eu tinha que dizer leiam "O morro dos ventos uivantes." Se você já leu e não gostou pelo menos já passou pela experiência.
Mrs. Lockwood acaba de alugar a residência Thrushcross Grange para uma temporada no campo, logo que chega resolve fazer uma visita de cortesia à seu senhorio em o morro dos ventos uivantes, lá encontra Heathcliff, Cathy, Joseph e Hareton e é tratado com sem um mínimo de cordialidade, volta para a granja e encontra a governanta Ellen Dean, pede a ela que o acompanhe em seus dias de enfermo e conte tudo sobre aquela família. Tudo começa com Sr. Earnshaw voltando de uma longa caminhada com um garoto que encontrou abandonado por não saber de onde vem e nem seu nome e batiza-o como Heatchcliff (tanto no nome, quanto sobrenome) e logo o acolhe como seu filho predileto causando ciúmes em Hindley, o filho mais velho. Já Catherine sua outra filha com o tempo cria uma amizade muito forte com o novo irmão. Devido ao ciúmes de Hindley, Sr. Earnshaw manda o filho para um colégio interno. Depois da morte do pai, Hindley volta do colégio já casado e passa a chefe da família começa então a maltratar Heathcliff  e faz dele um empregado. No começo Catherine e Hrathcliff continuam a amizade fazendo planos de vingança para o futuro, mas quando em uma  de suas travessuras Catherine é obrigada a ficar na casa de seus vizinhos, os Linton, para tratar de um machucado os dois começam a se afastar. A moça volta muito diferente e mesmo ainda gostando de seu amigo passa a dedicar seu tempo a suas novas amizades Edgar e Isabela Linton. Edgar logo pede Catherine em casamento ela aceita e quando ela abre seu coração a Ellen. Heatchcliff escuta a conversa e foge, anos depois ele volta enriquecido, ninguém sabe o que fez nem onde esteve, Catherine e Edgar estão casados mas ela retoma a amizade e pretende fazer com que Edgar aceite-o também, mas Heathcliff pretende vingar-se, primeiro de Hindley deixando- os na ruína depois de Edgar aproximando-se de sua irmã Isabela e causando grande desgosto em Catherine que adoece. Logo a história muda o rumo para Cathy e Linton, a primeira filha de Edgar e Catherine, e o segundo de Isabela e Heathcliff e como sua vingança se transferirá para eles.
O romance é o único escrito por Emily e não foi bem recebido na época. Um livro tenso e sombrio que trata das falhas do caráter humano, a sede de vingança, o orgulho e egoísmo. Apesar de muitas vezes os personagens me irritarem extremamente o livro flui muito bem e é como se Ellen estivesse contando a você a história. Muitas pessoas criticam o livro por ser dramático e cheio de "mimimi" mas não podemos esquecer em que época se passa. Uma época onde pessoas se apaixonavam apenas com um olhar, casavam-se em pouco tempo e amavam profundamente. O livro parece pertencer somente a dois grupos: os que amam e os que odeiam. E eu confesso, amo-o.

Afinal quem define o que é loucura? - Um estranho no ninho.


     contêm spoilers

Um estranho no ninho é uma adaptação de 1975, do livro homônimo de Ken Kesey, dirigido por Miloš Forman que conta a história de Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson), um presidiário que para fugir dessa condição, finge estar louco, ele vai para uma instituição onde começa uma amizade com os internos, a maioria ali por vontade própria.
McMurphy não consegue lidar com a rotina da instituição e acaba quebrando as regras e alvoroçando seus colegas. Criando então, conflitos com a enfermeira Ratched (Louise Fletcher) - que é considerados por muitos, cruel - uma mulher que acredita estar fazendo apenas o seu trabalho. Trata seus pacientes com regras rígidas, música clássica e grupos de apoio, onde todos tem de expor seus problemas e discutirem sobre isso. 


O filme nos mostra um rapaz tímido (Brad Dourif), um gigante com problemas de auto estima (Will Sampson), como ele mesmo diz no filme, se sente pequeno, um homem medroso (Sydney Lassick) e outro com problemas com sua esposa (Swight Marfield), todos são levados a pensar serem loucos por seus problemas que não encaixaram na vida em sociedade. O que nos traz um questionamento: quem define o que é loucura? Não temos todos nós  problemas internos?
O único que parece ansiar por liberdade é McMurphy, mas a liberdade desejada não está de acordo com o padrão da sociedade, o que o leva a um final indesejado e um tanto triste.
Tudo dá a entender que ele é submetido a uma cirurgia cerebral ou lobotomia. eu não poderia imaginar outra solução, além da morte, para seu estado, já que McMurphy era uma pessoa cheia de vida.
Não seria nem necessário dizer como está impecável a atuação de Nicholson, assim como de todo o elenco. Um filme considerado por alguns entediante, por falta de mais ação. Mas não se for levado pela reflexão.